Vou esclarecer uma coisa sobre a concepção que tenho de socialismo: o comunismo que Marx & Engels vislumbraram, e que hoje é ainda mais óbvio, não romperia de jeito nenhum com a interconexão produtiva nem do tempo deles menos ainda do nosso tempo. Nenhum país desenvolvido ou “subdesenvolvido” são capazes de produzir completamente sozinhos tudo que sua população precisa. Essa profunda interdependência dos povos não é algo necessariamente negativo: ocorrendo uma revolução realmente comunista, ela não pode se fechar numa “experiência nacional” se for realmente comunista. E veja: não é questão de vontade individual ou “das lideranças”. A experiência avançar ou não pra uma revolução comunista é questão de condições materiais e subjetivas. +++
@comunismo

  • austra_lopiteco@ursal.zone
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    24 days ago

    @Homempovo @RosaLuxemburgo @comunismo
    Me parece que os dois tem pontos relevantes, mas acho que rola também um vaticinio prematuro. As experiências revolucionárias aconteceram localmente. Cada uma enfrentou o império a sua maneira.
    A URSS tentou manter produtividade num sistema centralizado e criou gargalos que criou fragilidade política. A solidariedade e sacrifícios cubanos os mantém vivos até hoje. DPRK e Vietnã tão aí, bandeiras, ideologia e pensamento marxista sendo espalhado. Como resistência, claro, mas tão aí.
    O projeto chinês tá vivo, a gente simplesmente não sabe o que eles vão conquistar na luta contra o império. Nesse projeto evitar confronto direto é uma premissa clara. Então não espero que eles nos salvem, mas daí falar que sim ou não é prematuro e um tiquinho prepotente.

    • Rosa Luxemburgo :Ryyca:@ursal.zoneOP
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      24 days ago

      @austra_lopiteco @Homempovo @comunismo
      Antes de tudo, austra_lopiteco, toda experiência revolucionária tem de acontecer localmente, isso é inescapável. Todas tiveram um destino aprisionado ao contexto nacional, e isso não é prematuro dizer, é um fato. Se você acredita que o projeto chinês continua caminhando pro comunismo, OK, não temos muito o que discutir. Eu discordo completamente. Mas, aqui vai a minha resposta a ambos, e de certa forma já um tanto repetitiva: a maioria absoluta dos camaradas comunistas ignoram completamente os processos de produção de consciência quando vão analisar as experiências revolucionárias, e sem colocar esse ingrediente básico na receita, vcs continuarão não entendendo nada do que aconteceu nelas. +++

      • Rosa Luxemburgo :Ryyca:@ursal.zoneOP
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        24 days ago

        @austra_lopiteco @Homempovo @comunismo +++
        Outro ponto muito comum de apagarem da discussão, ou diminuírem a importância exatamente por ignorarem os processos de produção de consciência é que, para desenvolver as forças produtivas rapidamente em uma sociedade que não as tem tão desenvolvidas quanto o centro capitalista o ÚNICO CAMINHO é a exploração BRUTAL dos trabalhadores. E essa exploração vai produzir uma certa consciência, tanto nos explorados quanto nos exploradores. +++

        • Rosa Luxemburgo :Ryyca:@ursal.zoneOP
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          24 days ago

          @austra_lopiteco @Homempovo @comunismo +++
          Conforme se realizou essas explorações brutais dos próprios países e se vai desenvolvendo as forças produtivas e se vai produzindo consciências, essas consciências estarão marcadas por essas relações de produção, que, independentemente de serem completamente capitalistas ou não, não serão consciências “caminhando pra uma consciência socialista”, e isso tem impacto direto sobre o futuro dessas experiências. Esse é um aspecto que, bem ou mal algumas linhas anarquistas conseguiram manter como bandeira: o fato de uma certa relação de exploração gerar certos tipos de consciências incompatíveis com a caminhada em direção ao comunismo pleno. +++

          • Rosa Luxemburgo :Ryyca:@ursal.zoneOP
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            24 days ago

            @austra_lopiteco @Homempovo @comunismo Nem na URSS nem na China a quantidade ou tipo de trabalho excedente foi (ou é) decidido pela classe trabalhadora. Isso é/foi decidido de cima pra baixo, assim como as decisões em torno de quantas armas produzir, etc etc etc. Hoje temos a possibilidade de que redes possam suprir os trabalhadores das ferramentas necessárias pra não se colocar o poder dessas decisões em representantes que, mais tempo menos tempo, vão trair a classe trabalhadora (não necessariamente essa será a alternativa dos revolucionários no futuro, é só um exemplo). Lembrem-se da Espanha e da Grécia, onde a URSS não apenas não ajudou como impediu que a revolução acontecesse. Foi o interesse da classe trabalhadora que dirigiu essa decisão? Não. Interesses privados de uma classe. +++

            • Rosa Luxemburgo :Ryyca:@ursal.zoneOP
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              24 days ago

              @austra_lopiteco @Homempovo @comunismo +++
              Quanto a um Brasil pós revolucionário, é como eu disse, toda a produção mundial hoje tá muito interconectada. Bancar essa “nacionalização da revolução” no Brasil seria o quê em termos práticos? A China quer hoje nossa soja e nossa carne de gado. Primeiro, que ninguém tem qualquer evidência de que ela desejaria fazer transferência de tecnologia pro Brasil, pra que ficassem em pé de igualdade. Supondo que continuassem negociando soja e gado (e outras commodities do agro), o Brasil simplesmente não teria produto agro pra vender pq depende de quase 100% pra produzir até um pé de capim. O EUA permitiriam comércio conosco dos países capitalistas? Não. Teríamos tempo até desenvolver aqui todo o necessário pra então voltar a exportar pra China? Não. +++

              • Rosa Luxemburgo :Ryyca:@ursal.zoneOP
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                24 days ago

                @austra_lopiteco @Homempovo @comunismo +++
                O que aconteceria então? Ficaríamos mais ou menos na situação de Cuba com a URSS: vendendo subprodutos de cana e nossa indústria deteriorando por muitos anos. Isso eu tô falando só em relação ao agro, nenhum outro setor faria nada, pq produzimos muito pouco por aqui, e o pouco que produzimos dependemos do exterior também pra produzir. Não tô torcendo contra, eu tô pintando o quadro real da coisa. Seria um ambiente catastrófico, muito promissor pra luta contra revolucionária.
                Significa que eu sou contra uma experiência revolucionária no Brasil? Claro que não. Sou a favor, mas apontando a revolução pra um caminho efetivamente socialista, não pra construção de um Estado “socialista”. A história tem o material, é preciso aprender com ela. +++

                • Rosa Luxemburgo :Ryyca:@ursal.zoneOP
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                  24 days ago

                  @austra_lopiteco @Homempovo @comunismo +++
                  Se acontecer de ficarmos presos a uma experiência nacional, OK, vamos fazê-la a melhor possível, mas não começar HOJE a lutar por ela, porque ela não é o destino que eu quero. O destino que eu quero é pro comunismo, e, até que me provem ao contrário, nenhuma experiência nacional caminhou, nem lenta nem rapidamente, pra direção comunista.

                  • austra_lopiteco@ursal.zone
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                    24 days ago

                    @RosaLuxemburgo @Homempovo @comunismo
                    Eu entendo a crítica, sinceramente.
                    Até concordo de vez em quando no íntimo, quando diversas das contradições do projeto chinês, principalmente em escala internacional.
                    Eu acredito que a construção da consciência é importante em escala local pra fazer a revolução, mas hoje quem determina as consciências, com guinadas muito rápidas, é quem controla a comunicação. Internamente a China tem como fazer isso, então ela não precisa fazer um trabalho de massificação ideológica, como a DPRK ou Cuba.
                    China superou isso na revolução cultural.
                    O foco deles é em se preparar para um confronto apenas adiável com o império.
                    Esse projeto é guiado por um partido comunista profundamente meritocrático, como poucas experiências de poder, mas numa escala absurda.

                  • Rosa Luxemburgo :Ryyca:@ursal.zoneOP
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                    24 days ago

                    @austra_lopiteco @Homempovo @comunismo PIB e divisão de riquezas não são os parâmetros corretos pra se saber se uma experiência tá caminhando na direção comunista ou não. Se o resultado dessa melhor divisão da riqueza for uma consciência pequeno burguesa apodrecida, ora, então se está caminhando na direção contrária. E essa consciência apodrecida vai nascer das relações de trabalho, não apenas do padrão de vida que os indivíduos usufruem.

          • Homem-Povo :v_com:@ursal.zone
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            24 days ago

            @RosaLuxemburgo @austra_lopiteco @comunismo Bom dia, camaradas! Estou em outro fuso horário, por isso não pude acompanhar a conversa em tempo real, mas gostei muito de ler as suas reflexões hoje de manhã ao acordar. Acho que ter essas preocupações, e eu também as tenho, é um bom sinal, tanto de que estamos possivelmente caminhando na direção em que temos de tomar decisões quanto a isso, como de que talvez estejamos preparados pra tomar essas decisões quando chegarmos lá.

            Eu agora de manhã tenho compromissos, mas queria manter essa conversa ativa para vermos até onde podemos chegar. À tarde volto aqui para trazer um outro ponto de vista que queria compartilhar com vocês, para me dizerem o que pensam sobre isso.

            • Homem-Povo :v_com:@ursal.zone
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              24 days ago

              @RosaLuxemburgo @austra_lopiteco @comunismo
              Novamente a camarada Rosa toca num ponto crucial, e eu concordo que a Revolução não deveria admitir, e muito menos se apoiar na exploração dos trabalhadores. A ideia é justamente libertá-los.

              O ponto de vista que eu queria trazer sobre isso é que talvez devêssemos rever a premissa de que o desenvolvimento econômico no Estado socialista deve alcançar os mesmos índices dos Estados capitalistas, em que a exploração brutal dos trabalhadores é a regra.

              O nacionalismo, nos Estados capitalistas, associado à globalização da produção, é o que permitiu que os avanços socioeconômicos aconteçam à distância de onde se exploram os trabalhadores, e um Estado socialista não deveria almejar igualar os resultados obtidos dessa forma. +

              • Rosa Luxemburgo :Ryyca:@ursal.zoneOP
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                24 days ago

                @Homempovo
                O ponto em que bati insistentemente é de que nosso ponto de partida não deveria ser criar um Estado socialista, pq ou é Estado ou é socialismo. Se, depois de uma revolução, o resultado for a criação de um Estado com algumas vitórias advindas da revolução, ok, lidemos com a realidade. Mas a partir do Estado não se caminha em direção ao socialismo, o que sempre acontece é o contrário.
                @austra_lopiteco @comunismo

                • Homem-Povo :v_com:@ursal.zone
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                  24 days ago

                  @RosaLuxemburgo @austra_lopiteco @comunismo eu leio o socialismo como a fase primitiva do comunismo, justamente aquela em que nos servimos do instrumental capitalista para nos dirigirmos para a fase superior, em que extinguimos o Estado — ou, mais precisamente, o conceito de Estado deixa de fazer sentido dentro da organização social. O Estado serve, nessa fase primitiva, para submeter os detentores dos meios de produção, e também para defesa contra interferência externa, sendo a Revolução um fenômeno necessariamente local.

                  Eu entendo o ponto de vista dos camaradas anarquistas, que querem, até onde entendo, começar por extinguir o Estado, o que ao mesmo tempo deixaria desprovidos de seu instrumental opressivo os detentores do capital e alcançaria, muito mais cedo, o que nós comunistas +

                  • Homem-Povo :v_com:@ursal.zone
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                    24 days ago

                    @RosaLuxemburgo @austra_lopiteco @comunismo entendemos como fase superior do comunismo. Mas isso é muito mais difícil de conciliar com o fato de que a Revolução será um fenômeno local, porque sem o Estado nós ficaríamos muito vulneráveis às interferências externas, e porque ficaríamos absolutamente isolados para efeito de comércio exterior, inclusive com países socialistas.

                    Dito de outra forma, eu acho que o socialismo, i. e., a organização da sociedade sob um Estado transitório a caminho da sua extinção, é uma etapa necessária, ou um mal necessário, que não temos como deixar de aceitar até que o mundo inteiro esteja mais virado para lá do que para cá, se me faço entender.

              • Homem-Povo :v_com:@ursal.zone
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                24 days ago

                @RosaLuxemburgo @austra_lopiteco @comunismo Li em qualquer lugar que, se o nível de consumo dos EUA fosse igualado pelos demais países, nós precisaríamos de três planetas para sustentar a Terra.

                Se, portanto, o nível socioeconômico dos EUA-Europa é insustentável, devemos pensar não em formas de igualar esse padrão, mas em formas de reorganizar nossa atual produção, mesmo com o esforço laborativo que já fazemos, para que ela reverta em favor dos trabalhadores, e não seja dirigida toda para os detentores do capital.

                Eu sempre penso nos trabalhadores da indústria da construção civil, muitos dos quais vivem em casebres em situação irregular, porque o que constroem durante a jornada de trabalho não se destina a eles. +

                • Homem-Povo :v_com:@ursal.zone
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                  24 days ago

                  @RosaLuxemburgo @austra_lopiteco @comunismo A China, sob um partido comunista atualmente revisionista, impôs aos próprios trabalhadores um sistema exploratório e, com isso conseguiu reter dentro de suas fronteiras parte do resultado dessa exploração, que, do contrário, seria todo escoado para o centro do sistema capitalista. Só isso já melhorou muito a situação socioeconômica do país, e garantiu alguma independência, sem rompimento com o ocidente. É o que eles chamam de socialismo com características chinesas. Se em algum momento essa exploração pode ser interrompida para que possam a gozar verdadeiramente os benefícios do sucesso, é algo a se ponderar.

                  Mas um socialismo com características brasileiras poderia almejar outros sucessos. +

                  • Homem-Povo :v_com:@ursal.zone
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                    24 days ago

                    @RosaLuxemburgo @austra_lopiteco @comunismo
                    Veja, a propósito, que o nosso agro é dependente de insumos importados porque se dedica à monocultura voltada para a produção de commodities destinadas à exportação. Mas podíamos almejar uma reforma agrária que invertesse essa lógica, com uma produção agroecologia descentralizada, próxima dos centros urbanos.
                    Podíamos almejar a reinserção urbana das comunidades faveladas direcionando a indústria da construção civil para essas áreas.
                    Podíamos almejar reduzir o número de burocratas (contadores, advogados, bancários, financiários, securitários, faria-limers, etc.) e aumentar o número de trabalhadores nas áreas da saúde e educação…
                    Enfim, reorganizar a produção já resultaria em enormes benefícios, e isso certamente ganharia a simpatia do povo.